sexta-feira, 19 de abril de 2013

DESERTO




Caminho na esperança de encontrar o que procuro, o que perdi em algum lugar da minha história.
Na verdade, nem sei o que procuro.
Talvez comece por mim.
Talvez encontrando-me, posso mudar tudo.
Dúvidas, ansiedades, aflições certamente cessarão quando deste encontro.
Terão assegurados lugares cativos, certezas e convicções. 
Pelo menos creio eu.
Mas nesse momento, o tempo passa tão rápido, voa e me leva pra longe, distante do que me aproxima da vida.
Sinto-me perdido.
Como náufrago em pleno mar, nadando para se salvar.
Agarro-me a qualquer tábua
que se pareça com salvação.
Vago sem rumo, à esmo, pela estrada deserta de tudo, inclusive de mim mesmo.
Não sou parte desta paisagem.
Deixo passos, marcas pelo chão
como que indicando-me o caminho de volta.
Nem bem cheguei, já penso voltar.
Triste contradição.
Estranha sensação invade-me.
Toma-me por inteiro, faz-me prisioneiro,
numa prisão sem grades.
Livre sou para seguir para qual lado desejar,
mas vejo-me atado a um nó que não consigo desatar.
Caminhos e destinos contrapondo-se.
Mais contradição.
Sinto-me mais uma vez perdido.
Percebo que meu caminhar
torna-se lento, pesado, arrastado.
A poeira encharca meu rosto, e deixa minha boca seca e áspera, sedenta por vida. 
Procuro-me novamente em meio à um nevoeiro que sobrevoa minha mente, espessa neblina que embaça minha visão.
Cega-me por instantes e a escuridão se apodera sem pena, sem dó.
Estou só. Sinto-me só.
Olho o horizonte. Parece tão distante.
Acho que não vou conseguir atingí-lo.
Estendo as mãos, na tola esperança de alcançá-lo, apesar do  espaço vazio existente entre nós.
Desanimo-me, quase sem forças.
Viro-me e penso voltar ao ponto de partida e recomeçar.
Recomeçar do zero.
Recomeçar do nada.
Talvez seja esse o encontro esperado.
Talvez esse seja o meu encontro.
A retomada de caminhos que pareciam perdidos.
A retomada de uma vida que parecia sem vida. 
Vejo que caminhei incansavelmente sem parar, mas também sem pensar em nada.
Sem medir consequências dos meus atos.
Caminhava por caminhar.
Sem projeto, sem objetivo, sem sentido.
Fugia de mim.
Fugia da vida.
Fugia do mundo.
Fugia de todos e de tudo.
Não precisa todo este sacrifício.
Não precisava todo este sofrer.
Bastava apenas recomeçar, refletir,
recuar um passo atrás para dar dois à frente.
Simples.
Olho para trás e vejo que tudo poderia ter sido menos doloroso, mais tranquilo.
As dores marcaram não só meu corpo, mas principalmente minha alma.
Sangro.
Deixo exposto feridas vivas que não cicatrizam, que não se fecham.
Permanecem abertas o tempo todo.
Dizem que o melhor remédio é o tempo.
Que os sentimentos tendem a adormecerem, se aquietarem à medida que ele passa.
Que as lembranças perdem-se enquanto a vida segue teu curso.
E que o vazio reinante, que se fez companheiro durante a travessia, preenchido será novamente com outra vida que se renovará em teu interior.

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