terça-feira, 8 de outubro de 2013

VAGÕES




                                    O que procuramos está dentro de nós mesmos,
muitas vezes ocultos pela vaidade, pela arrogância, pela prepotência humana.
Sentimo-nos senhores, quando na verdade não passamos de servos.
Humilhamos pelo prazer de mostrar supremacia.
Na cor e no sangue achamos ser melhores como raça superior.
Na religião, entendemos ser a nossa a única a indicar o caminho da salvação.
No intelecto, nos vemos como seres inteligentes, enquanto os outros ignorantes.
Na experiência, empiricamente apresentamos nossas credenciais.
Na prática da solidariedade, fazemos mais que todos pelos necessitados.
Ajudamos de forma desinteressada quando nos pedem ajuda.
Somos nobres em nossas ações.
Diante deste quadro que assola a nossa vida
precisamos desvendar o véu que cobre nosso olhar,
desnudar a alma por inteiro,
abrir o coração sem medo de se entregar,
estender as mãos no fraterno gesto de amor.
Não devemos nos deixar levar pelas inconstâncias existenciais
que nos afastam da verdade,
que nos isolam em nós mesmos,
que nos aprisionam em nossos muros de sentimentos mesquinhos.
Que nos afogam em nossa própria mágoa,
que nos sufocam em nosso próprio querer,
que nos matam quando matamos em nós, o amor.
Precisamos quebrar as amarras que nos prendem ao cais da amargura, deixando livre nosso barco para navegar nesse oceano de incertezas e encontrar seu destino.
Desfazer os nós que nos torna reféns em uma particular solidão.
Rever o sol abrindo a janela da esperança e em seu aquecer matinal perceber que nada mais somos do que passageiros desse trem chamado Vida.
Não somos locomotivas, apenas vagões que conduzidos tem em seu caminhar a missão de ser e fazer um mundo melhor para todos.
Levar a cada lar, cidade, estação a semente viva do amor e plantá-la em cada ser humano para que juntos consigamos na prática viver e sentir
o real significado da Palavra, resumida em dois Mandamentos:
“Amar a Deus sobre todas as coisas e ao Próximo como a ti mesmo”

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

EU MESMO





Em algum momento de minha vida senti-me,
e não posso precisar onde, como e quando aconteceu tal fato,
uma pessoa importante, indispensável, imprescindível,
ao meu trabalho, à minha família, aos meus amigos.
Alguém com um valor inestimável.
Achava, como se diz por aí,
e como podem pensar alguns com tamanha opulência de minha parte,
o dono da cocada preta, o centro das atenções, o foco das coisas, referência.
Gostava de ser reconhecido, de ser admirado mesmo sem saber o que fizera,
somente o meu nome dito por algum lábio 
já me fazia ser lembrado, jamais esquecido.
Quanta pretensão de minha parte.
Olhar e se ver como algo ou alguém que abrilhantava as vidas das pessoas ao redor, que alegrava com teu jeito simples de ser, que ajudava e compartilhava sentimentos, que dividia tristezas e encontrava forças em meio ao caos reinante, que demonstrava serenidade e equilíbrio nas horas que mais se faziam necessários.
Estar sempre pronto a ajudar, ser muitas vezes incompreendido em suas ações, estender as mãos e perceber finalmente na carne que não passas somente de mais um na multidão.
O orgulho e a vaidade eram apenas ilusões de ser humano.
Arrogância e prepotência disfarçadas por atitudes que aos olhos alheios
pareciam humanizadas.
Então, num estrondo qual trovão em meu interior,
notei que era,
nada mais do que parte de um todo,
uma peça à mais neste quebra-cabeça existencial,
nessa engrenagem que nos movimenta incessantemente.
Muitas vezes olhei-me no espelho e não reconheci-me na figura do outro lado
que refletia medo, insegurança, um profundo vazio fantasmagórico.
Que me assombrava nas noites frias do meu viver.
Agarrava-me desesperado como náufrago a qualquer tábua de salvação que passasse por mim nos instantes de dor e amargura,
afastei-me de Deus sem saber para onde ia,
fugia de mim mesmo, fugia da vida, fugia dos meus sonhos e pesadelos.
Descobri então que não possuo a força que penso ter.
Sou frágil como qualquer cristal ou cristão,
possuo virtudes e defeitos como todo mundo,
erro e acerto na mesma proporção.
Não conheço a verdade, apesar de só existir uma:
Cristo.
E todos os dias estou a procurá-la para sentí-la dentro de mim.
Verdadeiramente.
Desconheço a Sagrada Escritura em sua totalidade,
embora tente entendê-la e seguí-la como forma de retidão.
Busco na medida que vivo encontrar respostas para os meus questionamentos,
certezas para as minhas dúvidas.
Procuro no silêncio da minha particular solidão,
uma luz que ilumine meu caminho por esta estrada.
Sigo sem saber aonde chegar, apenas caminho
na esperança de que nesta caminhada
possa encontrar o que tanto procuro.
Eu mesmo.