segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

PURA POESIA




Dizem que é bobagem escrever poesias,
que não possui valor como arte, que na verdade,
nem arte é.
Dizem que poesia boa existiu no século XIX,
no XVIII não  era nascida,
no XX esquecida,
deixou-se enterrar num passado distante.
Os poetas encontram-se consigo mesmo de uma forma que poucos podem sentir,
muitas vezes...
o poeta é um fingidor
finge tão completamente,
que chega a fingir que é dor
a dor que deveras sente.
(Fernando Pessoa)
Dizem que a poesia é morta, sem vida.
Não possui alma como um conto, não fala por si só como uma gravura, não revela suas curvas como uma escultura, não encanta como uma bela canção, como um bom livro não prende a atenção...
Resiste, porém, heroicamente, face a insistência de poucos que acreditam na sua força, na sua veia, no seu doce deleite.
Às vezes,
contemplo o lago mudo
que uma brisa estremece,
não sei se penso em tudo
ou se de tudo me esquece.
(Fernando Pessoa)
 Dizem que poetas são alienados, céticos, descrentes
que não raciocinam muito bem,
que enxergam um mundo ilusório que não mais existe,
que vivem à parte da sociedade tentando descrever algo que não pode ser descrito.
E os que leem o que escreve
na dor lida sentem bem,
não as duas que ele teve
mas só as que eles não têm.
(Fernando Pessoa)
Dizem que as palavras perdem-se no ar como folhas ao vento.
Que dizer desses versos, que revelam sentimentos ocultos,
vestígios, que ainda sepultos, sobrevivem dentro da alma?
Na sua eterna mansidão,
O lago nada me diz
Não sinto a brisa mexê-lo,
Não sei se sou feliz
Nem se desejo sê-lo.
(Pessoa)
Quero apenas viver.
“Não conto gozar a minha vida, nem em gozá-la penso. Só quero torná-la grande, ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a minha alma a lenha desse fogo.
Só quero torná-la de toda a humanidade, ainda que para isso tenha de a perder como minha.
Quero pra mim o espírito desta frase, transformada a forma para a casar com o que eu sou.
Viver não é necessário; o que é necessário é criar.
(Fernando Pessoa)

Um sonho feito em palavras, por entre veredas na noite calada um clamor ecoa pelos quatros cantos...
como encanto...
quem te ouve, quem te vê, seduzido fica pelo prazer de sentir-se enfeitiçado.
Rendemo-nos a sua magia, séculos e séculos de poesias revivem um tempo nostálgico,
nos levam de volta a um doce passado onde saraus nos casarões antigos, serviam de fontes à amantes e amigos da mais pura arte de se saber viver.
Entre vozes e velas, na penumbra da noite versos em acordes cintilam como açoites.
Ressurge na mente a chama ardente, sob as bênçãos sublimes dos poetas errantes.
Grilhões se partem, amarras se desprendem.
A arte ganha vida através do balé poético de versos declamados, não mais censurados,
e livres, contam sua história por meio de suas lembranças, memórias, vivas...
Vivo. Caso morras hoje, feliz morreria como poeta que pensa e diz:
Liberdade ainda que tardia. Não há mais quem por mim chores.
Livre sou...  Livre  vou... Livre voo...  
Na tênue linha que divide os espaços,
meus  passos deixo ficar
como sombras, marcas, rastros de um caminhar.
A estrada do tempo segue seu roteiro,
a distância dos mundos nos faz passageiros de uma viagem sem fim,
enfim,
a realidade se faz presente por meio da arte que pulsa latente nos corações que
 sonham o que os sonhos não sentem...
(Carlos Passarelli)
Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada... Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro.
(Clarice Lispector)